SINAIS DOS TEMPOS – Por José Fernando Magalhães (22)

 

 

POR QUE ESCREVER QUANDO O MUNDO ESTÁ TÃO BARULHENTO?

 

Escrever é, talvez, o último gesto silencioso que nos resta. Num tempo em que o ruído se infiltra em cada fresta da existência; o ruído das máquinas, das vozes apressadas, das notícias que se atropelam, das opiniões que se erguem como muralhas; a escrita surge como um refúgio, uma resistência discreta contra o tumulto. Esta pergunta, que se insinua como um sussurro nas pausas do estardalhaço global, não é uma interrogação sobre a utilidade, mas sim um lamento sobre a necessidade.

O mundo não está apenas barulhento; está saturado com um turbilhão constante de notificações, opiniões não solicitadas e imagens fugazes que nos roubam a presença. O acto de escrever, sendo um labor solitário e silencioso, parece uma futilidade, uma teimosia anacrónica, perante a voragem da hiper-conexão. Mas é precisamente neste contraste, neste abismo entre o ruído e o pergaminho, que reside a sua mais melancólica e profunda justificação.

A Perda da Pausa

O mundo é barulhento porque perdeu o hábito da pausa. Já não se ausculta o vento nas árvores, nem o rumor do mar como quem ouve um segredo. O barulho tornou-se a medida da vida moderna. Quem fala mais alto parece vencer, quem grita primeiro parece ter razão. E, no entanto, é nesse excesso de som que a escrita se torna necessária. Porque escrever é devolver ao silêncio a sua dignidade.

Neste cenário de caos acústico e visual, o silêncio não é uma ausência; é um bem escasso, quase uma subversão. É o mundo em que o ecrã se torna barreira e a multidão se transforma em isolamento. É o sentir-se isolado mesmo com milhares de amigos virtuais. Cada palavra escrita é uma tentativa de ordenar o caos. É como acender uma vela numa sala onde todos falam ao mesmo tempo: pequena, frágil, mas capaz de iluminar.

Escrever é desenhar uma linha ténue entre o dentro e o fora, entre o íntimo e o público. É dizer: “Aqui estou, e este é o meu murmúrio, que não precisa de competir com o estrondo do mundo.” É a última e derradeira tentativa de resgatar a voz interior. Essa voz, delicada e essencial, que é facilmente abafada pelo alarido externo.

A Solidão Escolhida

A escrita é a manifestação mais pura da solidão voluntária. É a escolha consciente de estar só, e não se sentir isolado, por um propósito maior. É fechar a porta, desligar o telefone, ouvir unicamente o som do risco da caneta e o do próprio respirar.

Escrever acontece, muitas vezes, quando já ninguém espera resposta.

Se a solidão criativa for o refúgio, a escrita é o trabalho nesse santuário. É o acto de fechar as janelas da alma ao ruído da exigência alheia, para que o pensamento; a ideia complexa, o sentimento subtil; possa, por fim, respirar e tomar forma. É a disciplina de nos retirarmos para o nosso ritual do retiro, transformando o tempo vazio em tempo pleno. É um acto de resistência contra a fragmentação da atenção, um exercício de foco profundo numa era de dispersão crónica.

Escrevemos para provar que ainda há algo que não foi gritado, mas sim sussurrado com intenção. Esta melancolia nasce, porém, da certeza de que, ao passo que nos dedicamos a este labor introspectivo, a maioria se perde na superfície. O ócio intencional, esse berço da criatividade, é hoje visto como preguiça, e a reflexão profunda é trocada pelo “scroll” infinito.

Há uma melancolia inevitável neste acto. Porque escrever é também reconhecer que se não é ouvido. Que o texto, por mais sincero, pode perder-se no mar de vozes. Mas talvez seja precisamente essa melancolia que dá sentido ao gesto: escrever não para ser ouvido, mas para não se perder de si mesmo.

Contra o Esquecimento

O barulho do mundo não é só alto; é fugaz. É um ciclo de notícias que morre em vinte e quatro horas, de tendências que se desvanecem numa semana, de interacções que se apagam com a luz do ecrã. A nossa era sofre de uma amnésia constante, onde o passado é rapidamente engolido pela novidade imediata. Hoje é uma polémica, amanhã outra. Hoje é um grito, amanhã um silêncio imposto.

Escrever é construir um arquivo da alma. É dar permanência ao efémero e sentido ao absurdo. A escrita, porém, permanece. Mesmo que ninguém a leia, mesmo que se acumule em gavetas ou ficheiros esquecidos, ela guarda a memória de quem ousou parar e pensar. É um testemunho contra a pressa, contra a erosão da atenção. É a âncora que lançamos para evitar que o nosso pensamento se perca na correnteza digital.

Há uma beleza trágica nisto: escrever é crer, ainda que debilmente, uma vez que há verdades que merecem sobreviver à bruma acústica, mesmo que a probabilidade de serem ouvidas seja mínima.

É um acto de preservação da memória, uma forma de manter vivas as experiências, as origens e as pessoas que se foram.

Escrever quando o mundo está barulhento é como plantar flores num terreno devastado. Talvez ninguém repare, talvez sejam esmagadas pelo passo apressado. Mas, por instantes, o espaço ganha cor, e quem passa pode sentir o perfume. A escrita é esse perfume: discreto, quase invisível, mas capaz de transformar o ar.

O Diálogo Interior

Quando tudo fora é tumulto, a escrita abre uma porta para dentro. É um diálogo com a própria sombra, com as memórias que não se deixam calar, com os fantasmas que pedem nome. É um acto de melancolia, sim, mas também de libertação. É um mecanismo para organizar a dor e o pensamento, uma busca por identidade e verdade.

A escrita surge como memória contra o esquecimento, gesto vital que resiste ao tempo. Ao escrever, não envelhecemos. Olhamos os livros que enchem a casa, respiramos o tempo e as palavras, olvidamos os nomes e as datas que alguma vez tenhamos dito, tornamos presente o ausente e o antigo. Relembram-se os lugares, os afectos, as perdas. Mantém-se o amor acordado, a perda, a morte, e a partida do amado.

Quando escrevemos, ouvimos as vozes esquecidas, transformamos a perda em ganho. Reconhecemos na intimidade e na tragédia um problema qualquer, um sentimento e um tema. Escrevemos a vida sem nunca envelhecer, um amor tamanho, o poder da palavra, do tempo e da perda. Escrevemos para não esquecer.

O acto de escrever apresenta-se como arma contra o apagamento e uma tentativa de fixar o instante. Rabiscam-se palavras contra o tédio, contra a tristeza, contra o esquecimento, como se fosse possível deter o tempo. A escrita é vista como memória e resistência, um modo de eternizar o que se perde, de guardar o que o tempo apaga, de dar permanência ao efémero, de não deixar morrer o que já morreu.

A Chaga do Esquecimento

O esquecimento não é apenas o natural defeito da memória individual. É também uma chaga social e histórica, uma falha na consciência colectiva. O esquecimento surge como abandono e negligência de bens e valores, como omissão, como falta de zelo pelo que é valioso e poético na paisagem urbana e na memória comum.

Há um esquecimento histórico que vota monumentos, edifícios e espaços ao mais completo abandono. O destino de grandes artistas ou peças de património que caem no esquecimento espelha a mesma solidão forçada: a solidão de algo essencial que é ignorado pela voragem do presente. É uma crónica de um tempo que se esqueceu de sentir, uma perda colectiva de sensibilidade, um apagamento da experiência humana.

A escrita surge implicitamente como a única arma contra este esquecimento. O acto de descrever, denunciar e registar a história e o valor desses lugares é uma tentativa de os resgatar da sombra. Escrever é testemunhar, para que não se perca o que já se perdeu, para que o esquecimento não seja absoluto.

Escrever como Caminho

Na vertente mais existencial e filosófica, a escrita liga-se à busca de sentido e à imortalidade pela palavra. A palavra é sentido: a sede, a inquietação e a busca do sentido do nosso itinerário vital são transformadas em palavra, a palavra é música, a música é sentido. A escrita é a forma de dar coerência e revelação à existência.

O caminho e a memória entrelaçam-se na escrita como meio de traçar e fixar o percurso. A escrita representa o caminho interminável na procura de quem é a nossa pessoa. O acto criativo é um esforço contínuo para evitar que o esforço, as lutas e os sonhos do caminho se desvaneçam no esquecimento.

Assim, o esquecimento é a sombra que ameaça a cidade e a alma, enquanto a escrita é o foco criativo que ilumina e preserva, seja o património físico ou a experiência existencial e o sentido da vida. A escrita torna-se dimensão memorialística e existencial, insistindo que escrever é guardar o que o tempo apaga, é uma poética da memória.

A fotografia, como outra vertente criativa, funciona como metáfora da escrita: ambas procuram reter o que o esquecimento ameaça dissolver. Ambas são tentativas de fixar instantes fugidios, transformando o quotidiano em narrativa para resistir ao apagamento.

Uma ligação Possível

No fim de contas, escrevemos para alcançar o único tipo de conexão que resiste ao teste do tempo: a que se faz de uma alma para outra, através da página, despojada de filtros e de likes. O mundo hiper-conectado falhou em ligar-nos de verdade. Escrever é tentar essa ligação genuína, a que só a vulnerabilidade partilhada permite.

É o testemunho que se deixa: Eu estive aqui, e senti isto, e pensei nisto. Talvez a escrita não cale o barulho do mundo; isso seria uma pretensão vã. Mas ela é capaz de criar uma câmara de ressonância no coração do leitor, um pequeno oásis de silêncio onde, por um instante, a solidão deixa de ser dor e se torna verdade partilhada.

Escrever é um lema para quem usa a palavra para construir, preservar e dar significado à própria existência e à memória colectiva. É dizer que não nos deixamos engolir pela superficialidade, que não aceitamos a amnésia como destino, que recusamos o esquecimento como inevitabilidade.

Por que escrever quando o mundo está tão barulhento? Porque o barulho não é vida. Porque o ruído é sempre exterior, mas a escrita nasce do íntimo. Porque o ruído é passageiro, mas a palavra escrita é uma tentativa de eternidade. Porque, no fundo, escrever é o único modo de não ser engolido pelo tumulto.

Escreve-se para resistir. Escreve-se para recordar. Escreve-se para que, no meio do alarido, exista ainda um lugar onde o silêncio se possa ouvir. Escrevemos para nos salvarmos do eco, e para que aquilo que sentimos e pensamos, e que é o mais real em nós, não seja a última e mais silenciosa vítima da nossa era.

O uso consciente da solidão criativa torna-se, assim, não um luxo, mas uma necessidade vital para a saúde da alma na nossa sociedade ruidosa.

Escrevo para não esquecer.

 

 

 

 

 

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